Quando Edu abriu os olhos, o seu quarto estava iluminado como nunca estivera um dia. Os raios de sol que entravam pela janela e refletiam na parede acima de sua cama, produziam um efeito visual onírico, que fez Edu, por um instante, imaginar-se num sonho estranho, mais agradável.
Sentia uma disposição nova. A febre, as dores, a lividez do rosto - sintomas de um mal que o prostara há duas semanas - tinham, de súbito, desaparecido. Num salto ficou de pé e deixou-se invadir pela luz da manhã. Espreguiçou-se, deu um longo bocejo e foi ao banheiro. No espelho viu um rosto que, se não estava corado, manifestava uma recuperação milagrosa. "Quero sair, aproveitar o dia de sol e ir à praia"! - Pensou Edu em menos de dois segundos.
Feita a higiene matinal, sentiu uma necessidade de comer. Não era exatamente fome, mas uma espécie de condicionamento que o impelia para a cozinha, onde encontraria sua mãe de fofoca com d. Irene, enquanto preparavam a mesa do café.
Edu deixou o quarto e viu uma sala muito arrumada como se fosse véspera de Natal. Tudo estava no lugar e havia na decoração impecável o rigor obsessivo de sua mãe. Contudo, não era comum que a sala estivesse organizada daquele jeito tão cedo, e em fevereiro! O que teria acontecido?
Chamou pela mãe e, sem resposta, apelou para o nome de d. Irene, cuja voz cantarolava uma música brega dos anos de 1980. Chamou pela empregada três vezes e também não obteve resposta. "Onde estão as pessoas dessa casa"? - Perguntou em silêncio de si para si. Foi até a cozinha e não encontrou a empregada, cuja voz deixara de ouvir quando se aproximava da porta. "Estariam todos na praia? Onde se meteu d. Irene que cantava uma canção melosa há pouco"? Edu tomou consciência de que estava sozinho em casa e ficou aborrecido e magoado. Como puderam deixá-lo em casa, convalescendo, enquanto se divertiam no mar? Esse pensamento o fez perder a já pouca vontade de tomar café. Voltou para sala e continuou estranhando, não a decoração, mas o rigor da arrumação. Notou que a sala tinha a mesma iluminação do quarto, o que o agradava, mas o confundia também. A sala de sua casa não tinha essa luz tão clara e límpida como se as paredes do ambiente fossem translúcidas.
Voltou para o quarto e, de repente, sentiu um peso na cabeça, e um sono imperativo ordenou que voltasse a deitar. Edu deitou, fechou os olhos e suas pálpebras perceberam que o ambiente lentamente esfriava e a luz tão clara, aos poucos, obnubilava seu quarto. Deu um suspiro e dormiu...
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