Pular para o conteúdo principal

Que noite, Leitores!


Patrícia, uma estudante de pedagogia da UFPE, conheceu Ricardo na xerox defronte ao CFCH, onde estudantes e professores faziam pouco caso dos direitos autorais. Com um semblante tenso, revelando impaciência e preocupação, a menina esbarrou acidentalmente em Ricardo, numa tentativa desesperada de ser atendida rápido. O esbarrão derrubou a pasta de textos que ele manuseava. A moça, constrangida, abaixou-se para ajudá-lo a recolher os papéis, e então Ricardo pôde sentir o perfume suave que ela usava. Agachados, seus rostos quase se tocaram e Patrícia sentiu um frêmito que lhe despertou um desejo que parecia esquecido... André, o seu noivo, já não lhe abrasava; e os beijos e os carinhos que trocavam eram, há muito tempo, como preencher formulário de repartição. Ricardo, que cursava filosofia, tinha um ar de moço de família, de um cavalheirismo que dificilmente se encontra nos jovens; mas não se enganem, tudo isso não passava de tática de sedução. A maneira como deu a mão para que a moça se levantasse e como a cumprimentou com dois beijinhos no rosto fez a futura professora de criancinhas se sentir viva novamente.

Despediram-se e cada um se entregou à rotina de estudos, bibliotecas, bares e festas, não necessariamente nessa ordem. O rapaz passou dois dias lembrando da cor morena da estudante de Pedagogia, de seu perfume suave, de seus olhos escuros, que revelavam um desejo de volúpia a muito custo contida. No terceiro dia, lembrava apenas do nome dela. Patrícia, porém, não conseguiu esquecê-lo. Sem ele saber, descobriu, numa época em que não havia redes sociais e os telefones apenas faziam chamadas, quase tudo sobre o rapaz. A descoberta mais valiosa para ela foi a de que Ricardo não tinha namorada e, segundo apurou, não era do tipo que colecionava conquistas amorosas.
Intrépida, Patrícia decidiu seduzir o moço, correndo todos os riscos e vivendo todo o prazer que uma aventura desse tipo pode proporcionar. Sem esconder a aliança, cercou o rapaz de atenções e cuidados que não deixavam dúvidas quanto às suas intenções.
A hesitação partiu de Ricardo. O rapaz estava longe de ser um santo. Costumava dizer aos amigos que quando uma mulher se impõe como Patrícia estava fazendo, seria uma descortesia não corresponder às suas expectativas.  Contudo, Ricardo estava apaixonado, e um homem nesse estado é capaz de tudo, até mesmo ser fiel ao objeto de sua paixão.   
 O que o fazia vacilar nesse era sua colega de turma, Cláudia, que também era comprometida, mas, ao contrário da futura pedagoga, fazia um ar mais recatado, afetando pudores. Tornou-se muito próxima de Ricardo, tão próxima, que os amigos brincavam dizendo que o verdadeiro noivo dela era ele, porque o oficial era mais um nome do que uma pessoa. Eles riam nervosamente, e negavam mutuamente qualquer outro sentimento que não fosse amizade sincera. Os mais maliciosos, como Plínio, diziam que os pudores de Cláudia mal escondiam os ardores que ela sentia quando estava perto de Ricardo. O rapaz sorria dessa observação, e, secretamente, torcia para ser verdade.
Patrícia estava decidida a convencer Ricardo de que o risco valia a pena. Quem, se sentindo insatisfeito, poder ser censurado por tentar buscar a satisfação? "O adultério era feio, mas seu propósito era belo". - Justificava-se a moça com a própria consciência.
Ricardo, ao fim de uma aula sobre A Ética Aristotélica, estava descendo as escadas do CFCH com Cláudia. Conversavam aquelas banalidades típicas de quem evita o assunto relevante. Na saída do prédio, Patrícia o esperava com o mesmo olhar daquela noite na xerox quando ela tentou ajudá-lo a recolher os papéis. Ele a avistou e, num átimo, percebeu que era agora ou nunca!
- Ricardo, como você demorou. Podemos conversar um instante? - Disse Patrícia impaciente e sem sequer olhar para Cláudia.
- Patrícia, tudo bem? – disse o futuro bacharel em filosofia, afetando tranquilidade - Hoje a aula se estendeu demais. O professor parecia estar em transe.  Saímos antes do fim da aula...Ah, desculpe. Vocês se conhecem? Cláudia, esta é Patrícia. Patrícia, esta é Cláudia.
As moças comprometidas trocaram cumprimentos formais e então Ricardo falou:
- Claro que podemos conversar. Eu só vou deixar minha amiga na parada de ônibus e a gente se encontra no Centro de Educação, pode ser? - Disse o rapaz controlando a ansiedade.
Patrícia assentiu contrariada, mas nada podia fazer. Além do mais, encontrar-se no CE era uma espécie de garantia de que seu plano daria certo.
Ao se encaminharem para o ponto de ônibus, Cláudia lhe segurou as mãos e disse:
- Rico, cuidado. A moça é noiva e vi nos olhos dela intenções de lascívia. Veja lá o que você vai fazer.
Ao sentir a mãos de Cláudia na suas, e ao trocarem olhares de cumplicidade afetiva, Ricardo tomou consciência de que estava na hora de esquecer as amenidades e partir para o assunto sério.
- Cláudia, acho que você está exagerando. Trata-se apenas de uma querida amiga, um tanto desastrada, é verdade, mas apenas isso. – Buscou um pouco de ar e concluiu – Além do mais, meu coração tem outros interesses no momento.
Soltaram as mãos e imperou um silêncio constrangedor. Era como se os 15 metros que faltavam até à parada de ônibus, de repente, tivessem se transformado em 1,5 Km.  As palavras de Ricardo, a cumplicidade das mãos, os olhares, tudo isso fez com que eles tomassem consciência de que estavam despidos no meio do Jardim do Éden. O silêncio foi quebrado por Cláudia.
- Ricardo, você não precisa ficar.  Não deixe a moça esperando. – Disse tentando disfarçar o incômodo.

- Por mim esse ônibus nunca chegaria. Eu ficaria aqui por mil anos e teria a impressão de que não passou sequer um dia. – Ricardo estava disposto a arriscar tudo.

- E o que você diria à Patrícia depois de um milênio? – Perguntou sua amiga rindo e entrando no jogo.

- Patrícia? Ela não esperará sequer vinte minutos, que dirá mil anos. Aposto que nesse tempo que estamos aqui, ela já resolveu o problema que tanto a angustia.

- E você, Ricardo, o que o angustia? – Cláudia fez essa pergunta num tom de voz indeciso como se, por um segundo, seus pensamentos ganhassem voz.

- Nada me angustia mais do que a esperança e a incerteza. Espero há muito tempo parar de fingir o que sinto. Se não o fiz até agora é porque não estava certo de sua reação. Porém, decidi agora, nesse instante, abandonar as precauções e confessar o que meu coração, há meses, me impelia a fazer e eu sempre recuava...  

Cláudia toca com o indicador a boca de Ricardo num gesto delicado e decidido, que o impeliu ao silêncio. Foi ela quem falou.

- Rico, não podemos viver uma fantasia. A paixão, especialmente as repentinas e avassaladoras, não passam de ilusão. Depois do efeito capitoso que ela causa nos amantes, as consequências são sempre funestas. O que começa errado não tem como terminar certo. Quero sempre lembrar de nossa amizade com saudade e nunca com remorso.  O que você quer é impossível que eu conceda...

O ônibus de Cláudia atendeu ao sinal de parar e Ricardo viu a amiga subir no coletivo, passar na catraca e sentar-se na cadeira. Ficou esperando que ela lhe lançasse um olhar de despedida, mas ela não se virou, como a deixar claro que não havia espaço para esperanças vãs.  O ônibus seguiu o seu destino.

Desiludido, mas refeito, o rapaz se dirigiu apressado para o CE e encontrou Patrícia que o esperava pacientemente. Sem dizer nada, ele a tomou pelas mãos, foram até uma sala de aula vazia no final do corredor e a moça, com seus beijos e carícias, secretamente sabia que o estava consolando...E daí, ela só queria se sentir viva antes do casório marcado para o próximo mês.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Despertar

Quando Edu abriu os olhos, o seu quarto estava iluminado como nunca estivera um dia. Os raios de sol que entravam pela janela e refletiam na parede acima de sua cama, produziam um efeito visual onírico, que fez Edu, por um instante, imaginar-se num sonho estranho, mais agradável. Sentia uma disposição nova. A febre, as dores, a lividez do rosto - sintomas de um mal que o prostara há duas semanas - tinham, de súbito, desaparecido. Num salto ficou de pé e deixou-se invadir pela   luz da manhã. Espreguiçou-se, deu um longo bocejo e foi ao banheiro. No espelho viu um rosto que, se não estava corado, manifestava uma recuperação milagrosa. "Quero sair, aproveitar o dia de sol e ir à praia"! - Pensou Edu em menos de dois segundos. Feita a higiene matinal, sentiu uma necessidade de comer. Não era exatamente fome, mas uma espécie de condicionamento que o impelia para a cozinha, onde encontraria sua mãe de fofoca com d. Irene, enquanto preparavam a mesa do café. ...

Amiga é para essas coisas

Amiga é para essas coisas. Não havia fim de tarde em que Denise e Valquíria não se encontrassem no hall do edifício para, juntas, fazerem a caminhada no parque de Águas Claras. A amizade não era antiga, tinha uns dois anos, e começou pelo fato de ambas serem esposas de funcionários do Banco Central (embora de cargo comissionado). Em pouco tempo descobriram afinidades e se tornaram amigas a ponto de trocarem confidências da vida conjugal. - Não sei mais o que faça para despertar o Ricardo - Lamuria-se Denise para a amiga Valquíria. - Amiga, não pressione tanto o seu marido - Contemporiza a companheira de caminhada, e continua - Mudar de função no trabalho, especialmente num cargo de mais responsabilidade, exige um tempo de adaptação. Logo logo, vocês voltam aos melhores momentos. - Sei que não tenho mais 17 anos, quando nos conhecemos; mas ele também não! Mesmo assim, ainda sinto a mesma volúpia adolescente. – Denise solta um longo suspiro e como se estive...