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Visão do Olimpo



Angélica era daquelas moças que indo ou vindo fazia os garotos suspirarem nos corredores da ETFPE.
Genésio, o astrólogo de nossa turma, sempre cheio daquela superioridade de quem conhece a natureza humana a partir dos signos do zodíaco, vaticinava: "O sol em sagitário e a lua em escorpião torna essa menina irresistível e perigosa. Que os astros nos protejam de sua graciosidade".
Para o nosso grupo de rapazes mirrados, a deusa das salas do Bloco B era como um sonho irrealizável. Era como passar em Físico-Química sem filar.


Não bastasse a beleza de Angélica a intimidar os mais destemidos, ainda havia o brutamontes de seu namorado (que lembrava o herói Sansão, embora tivesse nome de imperador romano), a dissuadir qualquer ímpeto insensato de aproximação. Meros mortais, como eram os rapazes de nosso grupo, só podiam admirar à distância aquela beleza perigosa e inacessível.


Numa manhã chuvosa, quando o Recife parecia destinado a se afogar com tanta água, Angélica surgiu no corredor e deu a impressão de que os céus se abriram num azul de dezembro. No banco de pedra, refestelados, estavam Monteiro e o seu amigo matando a aula de Física. De súbito, eles se levantaram em sinal de reverência à beleza. Para surpresa de ambos, a menina de olhos de mel tinha ido procurá-los.
- Tudo bem, meninos? - Disse a moça com uma voz melíflua.
Os rapazes não responderam. Estavam paralisados como se estivessem diante da sarça ardente do Sinai e ouvido a voz de Deus a lhes ordenar que tirassem os calçados.
- Ei, meninos! Vocês estão bem? - Disse Angélica quase sorrindo.
- Sim, sim... E você, está bem? - Respondeu o amigo de Monteiro mal disfarçando o nervosismo.
- Você, Monteiro, não gostaria de ir comigo à festa dos estudantes na próxima sexta? Não estou mais namorando, caso você ache importante saber.
Os amigos se entreolharam assustados e sem acreditar. Era como se Afrodite tivesse deixado o Olimpo para flertar com o mais humilde dos atenienses. "Só pode ser uma pegadinha", pensou Monteiro, e então respondeu:
Angélica, quem no seu juízo perfeito não tomaria o seu convite por uma intimação? O mais covarde dos homens, por sua causa, enfrentaria mil Tibérios. Um simples meneio de cabeça que você fizesse arrebataria um milhão de corações. Mas, infelizmente, não poderei ( Deus perdoe a blasfêmia) aceitar o seu convite. Há uma semana estou namorando e, evidentemente, ela será o meu par nessa festa. 
Angélica franziu o semblante. Como toda a escola, ela também sabia do namoro de Monteiro,  afinal, ele era uma liderança estudantil em ascensão na escola; mas ela tinha a certeza, que a beleza lhe dava, de que não seria preterida. 
Mesmo contrariada, não perdeu a pose. Despediu-se com gentileza e os amigos ficaram admirando a volta de Afrodite para o Olimpo.

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