Amiga é para essas coisas.
Não havia fim de tarde em que Denise
e Valquíria não se encontrassem no hall do edifício para, juntas, fazerem a
caminhada no parque de Águas Claras. A amizade não era antiga, tinha uns dois
anos, e começou pelo fato de ambas serem esposas de funcionários do Banco
Central (embora de cargo comissionado). Em pouco tempo descobriram afinidades e
se tornaram amigas a ponto de trocarem confidências da vida conjugal.
- Não sei mais o que faça para despertar o
Ricardo - Lamuria-se Denise para a amiga Valquíria.
- Amiga, não pressione tanto o seu
marido - Contemporiza a companheira de caminhada, e continua - Mudar de função no trabalho, especialmente num cargo de mais responsabilidade, exige um tempo de adaptação. Logo logo, vocês voltam aos melhores
momentos.
- Sei que não tenho mais 17 anos, quando nos conhecemos; mas ele também não! Mesmo assim, ainda sinto a
mesma volúpia adolescente. – Denise solta um longo suspiro e como se estivesse
lembrando de um passado remoto, diz: - Como ele tinha fome antes, Val... Hoje,
vive de fastio ou...
- Ou o quê, criatura? Pare de
caraminholas, como dizia minha avó Quitéria lá de Uberaba. Você não está
pensando...
Denise não conteve as lágrimas e
ambas decidiram pedir uma água de coco no quiosque roxo ao lado do parque
infantil.
- Val, é muito tempo sem me procurar.
Tudo que aprendi com uma Youtuber, que ensina como reavivar o sexo no casamento, eu já fiz e nada aconteceu. Eu, moça
da igreja, cristã séria, cheguei... Ai, que vergonha!, cheguei a flertar com o
pecado nefando... – Essa última frase foi dita no ouvido da amiga para não
escandalizar as mamãe e as vovós que vigiavam os pequenos no parque – fiquei na cama à espera dele, oferecendo-lhe o que sempre recusei... e fui ignorada. Foi um vexame! As desculpas são as mais
banais. Cansaço, preocupação no banco, sono, dor de cabeça... Eu acho, ai, meu
Deus, não quero nem pensar...
- Será que ele é gay?
- Não, isso não! Se fosse isso, seria
menos pior...
- E o que poderia ser pior?
- Acho que ele tem uma amante -
Denise faz essa confissão em tom quase imperceptível porque duas senhoras com
roupa de ginástica e afetando uma juventude há muito perdida, estavam atentas
ao diálogo das amigas.
- Não é possível! - Disse Valquíria
como se protestasse.
- Você deu sorte, amiga. Valério é um
homem tão bom, atencioso e gentil. Logo se vê pela sua beleza o quanto você é
bem tratada por ele. – Denise emprestou um tom de picardia a essa última observação.
- Dê, meu bem. Não posso me queixar de Valério. Mas não
existe homem perfeito, acredite. Perfeição demais é defeito, não qualidade. Mas
eu não acredito que o Ricardo tenha uma amante! Ele não faria isso. Vou pedir
em oração pelo seu casamento, minha amiga. Tenha fé que tudo voltará ao normal.
Três dias após essa conversa, Ricardo
chegou em casa como se estivesse famélico. Foi tão impetuoso que não demorou para
saciar-se. Denise sorriu resignada porque o pouco diante de nada, é muito. No
entanto, em duas semanas a virilidade apressada de Ricardo esmoreceu e tudo
voltou à mesmice de antes. E como antes, a esposa foi desabafar com a amiga no
Parque. E, como antes, houve promessas de orações; e, como antes, três dias
depois, seu marido voltava ao furor da adolescência. E assim se passou quase um
ano até que a tragédia se abateu...
Valério perdeu sua função com a
mudança de governo e Valquíria precisou voltar com o marido para Uberaba. Houve
uma comoção na casa de Denise. Choros, lamentos, promessas de visita, mas o que
mais preocupava a esposa de Ricardo era encontrar logo uma nova companheira de
caminhada no parque.

Fiquei curiosa em ler o restante do texto, mas já estou imaginando o que aconteceu...hehehe!
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