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O Encontro



Diógenes sempre se caracterizou por um ceticismo sarcástico que os detratores chamavam apenas de estupidez afetada. Deixarei aos leitores o julgamento do caráter desse amigo que em tom de pilhéria chamávamos de O Filósofo.
Alexandra era como um dia de aniversário. Colorida, feliz e animada. Não havia grandeza que não se rebaixasse diante de Alexandra. Tinha todos os namorados que quisesse ( quase sempre queria todos) e não havia desejo, mesmo aqueles impossíveis, que nossa Imperatriz não satisfizesse.
Quando Alexandra cruzou com Diógenes no corredor da ETFPE, ele a ignorou com uma displicência ofensiva para a moça. Perguntou à Pérsia - amiga de pouco tempo e de uma submissão comovente - quem era aquele rapaz de cabelos desgrenhado e de aparência desleixada que ousava desmerecer sua presença imperial. A amiga disse tratar-se de Diógenes. Tinha fama de sujo e de esquisito e era alvo de gracejos porque apresentava comportamentos estranhos.
- Comportamentos estranhos? - Perguntou Alexandra intrigada.
- Sim. Não usa caderno. Anota as aulas numas folhas sem pauta e sujas. Não tem calculadora e usa tocos de lápis recolhidos à lixeira. - Disse Pérsia, mal escondendo o enfaro que a descrição lhe causava.
- Qual o período dele no curso? - Alexandra demonstrava um interesse incomum.
- Está no 4° período e é tido como um projeto de gênio porque suas notas enchem de orgulho os professores. Oscarino disse que Diógenes tem potencial para ser um Mendeleev. Aprígio o considera um Rutherford. Eufrásio chegou a chamá-lo de Linnus Pauling. Professores costumam chalerar gente como Diógenes. No final, ele será, no máximo, um professor como eles a projetar em seus alunos os sonhos de grandeza que nunca chegaram a realizar. - Pérsia sempre que podia exibia sua personalidade corrosiva.
- Pérsia - disse Alexandra resoluta - Você sabe que não há nessa escola garoto que resista aos meus encantos... Já namorei os mais desejados dos alunos daqui. Minha última conquista foi Corintho, que se vangloriava da fama de sedutor e terminou miseravelmente apaixonado.  Depois que me satisfiz, sua insistência pegajosa me causou asco e vive por aí e lamentar meu desprezo, mas sei que me bastaria um gesto simples e ele rastejaria como um cão vagabundo a suplicar minha atenção. Agora, porém,  quero Diógenes. Ele não resistirá a cinco minutos de minha atenção. Você sabe o que fazer.

Pérsia, sempre prestimosa aos caprichos de Alexandra, forjou a melhor situação para que sua amiga pudesse encontrar casualmente Diógenes na biblioteca da escola. O encontro se deu nas escadarias onde O Filósofo sempre se recostava no terceiro degrau enquanto se distraía com alguma leitura. Na ocasião, ele se dedicava aos poemas de Augusto dos Anjos, de quem, certamente, Alexandra ouvira falar assim vagamente na Aula do professor Medeiros. Mas, para iniciar uma conversa fiada, nada melhor que exibir um conhecimento rasteiro.
- Como vai, Diógenes? - Alexandra lançou mão de seu sorriso mais iluminado para cativar o rapaz de súbito, e prosseguiu - Interessado nos versos macabros de Augusto?
- Desculpe - Diógenes respondeu com indisfarçável irritação - Quem é você que se atreve a interromper minha leitura?
Alexandra ficou perturbada. Esperava do rapaz um espanto comovido de quem se depara com uma felicidade imerecida. No entanto, Diógenes a tratava com um desdém que ela jamais conhecera dos homens a quem dirigia um sorriso. Embora ofendida em seu orgulho, disfarçou a vaidade ferida e lhe falou.
- Eu sou aquela a quem os homens costumam oferecer a alma por uma simples palavra minha. Aquela cujo sorriso faria Aquiles esquecer Pátroclo e Ulisses nunca mais desejar regressar à Ítaca - Disse a moça abusando das aulas de classicismo grego.
Diógenes deu um suspiro de enfado, fechou o livro e se ergueu de modo a encarar os olhos de Alexandra, que tinham a cor de uma tempestade, e fixou aquele rosto que já tinha conquistado o mundo inteiro e lhe respondeu:
- Moça, para mim você é aquela que me rouba a alegria da solidão. O prazer da paz do silêncio e a satisfação da leitura. Ainda que eu estivesse lendo os poetas marginais do Recife, sua presença impertinente me causaria repugnância. Por gentileza, guarde seus truques de sedução para os tolos que sobram nessa escola e me deixe continuar ignorando sua existência.
Alexandra conheceu pela primeira vez o sabor do desprezo. Ficou tão atordoada que não percebeu a satisfação de Pérsia...

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